Terça-feira, Junho 20
«Pantsil enfurece árabes e Gana pede desculpa
A Federação Ganesa de Futebol pediu desculpa pelo facto de o seu defesa John Pantsil, após o final do jogo com a República Checa, ter festejado o triunfo com uma bandeira de Israel, provocando a ira de alguns meios árabes. (...) Pantsil joga em Israel, no Hapoel Tel Aviv, e, segundo o porta-voz do Gana, terá apenas querido agradecer aos israelitas que viajaram de Israel para o jogo e o apoiaram. (...) A verdade é que várias embaixadas do Gana espalhadas pelo mundo receberam cartas de protestos. 'Este ignorante e estúpido Pantsil, que passou 20 dias no Egipto durante a última Taça das Nações Africanas, joga no Hapoel', apontou o diário egípcio Al-Akhbar (...) No Egipto, alguma imprensa acusou Pantsil de ser um agente da Mossad (...)»
Mas este gesto do jogador do Gana, amplificado pelos média de boa parte da humanidade, concorre para o domínio do simbólico. Tal como a simples participação da selecção iraniana o fez. O que importa salientar aqui é a chave ideológica que permite ler aquela bandeira de Israel num jogo entre o Gana e a República Checa. A visão que todos temos do conflito israelo-árabe está intoxicada por um acompanhamento parcelar e enviesado do que verdadeiramente se passa no Médio Oriente. Daí decorre uma simpatia natural para com aquilo que grosseiramente se designa por «causa palestiniana», como se ela fosse una, tal como uma incapacidade generalizada para aceitar que o dia-a-dia dos israelitas não é menos dramático do que o dia-a-dia dos palestinianos.
Não tenho qualquer simpatia pelas lógicas duais em que israelitas e palestinianos parecem subsistir. Sei que os palestinianos só têm uma identidade nacional precisamente graças à existência de Israel. É uma verdade, ainda que aparentemente paradoxal. Mas irrelevante, porque só haverá uma normalização da região com dois Estados soberanos - e, porventura com uma capital internacional sob a égide da ONU. No concreto, os bloqueios a essa solução provêm essencialmente da Autoridade Palestiniana. Houve tempos em que assim não foi, mas agora a realidade é essa. Em Israel já não existem falcões na arena decisória e o Kadima é a possibilidade dessa evolução. À esquerda, inicialmente; à direita, depois; para além de ambas, agora. Os maiores problemas estão hoje na AP e na sua disputa interna entre legitimidades políticas e negociais. Precisamente porque os grupos radicais islâmicos, como o Hamas, já perceberam que a regressão da Jihad global vai começar ali com a coexistência de dois Estados independentes e plurais. Isso explica também inflexão na política musculada de Sharon, sob pressão dos EUA.
Na minha opinião, a bandeira mostrada por Pantsil representa tudo isso. A possibilidade da tolerância, da paz, do humanismo. Actualmente, só por estupidez se pode negar a vontade de Israel em dialogar com interlocutores palestinianos rumo a uma solução conjunta. O próprio Mahmoud Abbas está hoje mais próximo de dirigentes israelitas do que do Hamas. Pantsil poderia ter aberto uma bandeira com a representação dos dois futuros Estados. Não o fez. Talvez tenha feito bem. Foi simples, genuíno, feliz.

Etiquetas: Futebol, Israel, Pantsil, Simbologias
# por Tiago Barbosa Ribeiro em 20.6.06
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