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Segunda-feira, Agosto 7

O ANTI-SEMITISMO DEPOIS DO ANTI-SEMITISMO. Começo pelo óbvio. Parece-me uma leviandade e um disparate agitar o véu do anti-semitismo anti-judaico perante a oposição a determinadas políticas do Estado de Israel. Não aceito essa camisa-de-forças de que já fui alvo, absolutamente impeditiva de uma discussão saudável e sem interditos. Na ausência de outros argumentos, o espaço público tende a reduzir as partes a uma hipersimplificação de posicionamentos e conteúdos. E aí temos muitas formas de arregimentação intelectual, do anti-semitismo à islamofobia, que importa sobretudo questionarmos a quem servem. Esse facto não desmente que o anti-semitismo anti-judaico seja uma correia reconhecível em discursos particulares que se confundem propositadamente com outras oposições que não têm – nem permitem ter – leituras de rodapé sobre os acontecimentos em curso.

O terreno é movediço e difícil de desmontar. Por um lado, muitos anti-semitas anti-judaicos perpassam o seu discurso-condutor no seio das recorrentes acusações de anti-semitismo que são grosseiramente lançadas sobre quem conteste alguns focos de actuação de Israel. O anti-semitismo deixa de ser uma realidade concreta para se transformar numa banalização acrítica que todos ignoram. E que alguns aproveitam em sentido inverso, usando-o como canal de legitimação sem escrutínio. Desde há muito, isso é um clássico retórico que se torna menos camuflado quando Israel participa em conflitos de maior envergadura que não a guerra de baixa intensidade nos territórios do proto-Estado palestiniano. Por outro lado, embora decorrente de uma mesma simbólica civilizacional de perseguição e estereotipia dos judeus, constata-se que há um anti-semitismo anti-judaico de tipo novo que desorganiza o nosso entendimento sobre ele. Se excluirmos a direita radical, mais anti-semita do que islamófoba nas suas alianças presentes, há bolsas de anti-semitismo que vão ganhando visível articulação nas correntes mais dogmáticas e enquistadas da esquerda ocidental. Aquilo que se enuncia como solidariedade com os povos árabes em necessária oposição a Israel, sendo já de si um enfeudamento teórico, vai evoluindo para formas crescentes de desprezo e repulsa automática em relação a um Estado que se transforma assim num sistema de representações muito para além da geografia de um país.

Nessa estrutura representacional que é em parte herdada do edifício de parentescos da Guerra Fria, Israel detém uma dupla identidade que estimula uma oposição sem concessões. Numa primeira linha, mantém-se a ideia de que o Estado israelita continua a esmagar esse anacronismo que é hoje o socialismo árabe, herança falida dos não-alinhados de Bandung com vocação de alinhamento. Noutra linha, Israel vivifica-se como uma extensão ideológica dos EUA e por isso o anti-semitismo acaba por ser accionado de uma forma genérica por uma lógica reprodutora de outros combates: o capitalismo, o imperialismo e o liberalismo histórico. O fundamentalismo islâmico, ao estabelecer a síntese entre ambas as realidades, vem colocar um desafio a essa esquerda que ficou órfã em 1989. E as escolhas estão feitas.

Enquanto as esquerdas que nunca necessitaram de revisão crítica do passado não deixam margem para equívocos num posicionamento equilibrado em relação a Israel sem alienar as suas responsabilidades no que concerne à auto-determinação palestiniana, na maioria das esquerdas militantes já se percebeu que a questão palestinana tem pouco que ver com as explosões de Madrid e Londres ou com os cartoons de Maomé, mas ainda assim turva-se deliberadamente o real e contribui-se i) para o isolamento da via laica árabe e ii) para o enfraquecimento de Israel face ao desígnio dos integristas e ao expansionismo da revolução islâmica no Médio Oriente. E é isso que não pode ser tolerado porque não é inadvertido. Quando Hugo Chavéz aceita ser condecorado pelo presidente do Irão, acredito que não pretenda impôr madrassas aos venezuelanos. O seu objectivo imediato é atacar os EUA por procuração. Chávez é um populista bolivariano com poucas referências que não a mitologia revolucionária latino-americana. Talvez desconheça que a esquerda nascida nas depurações estalinistas é fértil em alianças ignominiosas com vista a relocalizações ideológicas consoante os avanços e os recuos de cada período. E, conhecendo-as, vê-se que não as recusaria. O pacto estratégico entre a URSS e a Alemanha nazi foi apenas mais um num campo que sempre promoveu a visibilidade pública de princípios inegociáveis para os negociar na primeira oportunidade. Acontece que o fundamentalismo islâmico, ao ser aceite nessa esquerda, vai desfigurá-la em definitivo porque é mais definitivo do que ela.

A novidade epistemológica está num anti-semitismo que não decorre necessariamente dos factores clássicos de ódio aos judeus, mas que se aprofunda numa sintonia entre essa mesma aversão – que pode nem ser objectiva mesmo para quem a detém – e novos factores que a tornam inteligível. Na Palestina cometem-se «crimes nazi-sionistas», como se lê nas inúmeras publicações em linha que alimentam um violento revisionismo em relação ao Holocausto e fomentam um redimensionamento da maior tragédia da modernidade ocidental. James Petras, um ideólogo que se faz passar por sociólogo, conseguiu mesmo transformar numa coisa bastante aceitável o pogrom que serviu de ensaio à «Solução Final» nos campos de morte do Leste (em 1938, não 1939):

«O Kristalnacht, o assalto nazi de 1939 às casas de judeus em 'represália' pelo assassínio de um funcionário da embaixada alemã por um judeu, foi uma festa de jardim em comparação com a actual destruição do Líbano pelo exército israelense. (…) Todas as principais organizações judias dos Estados Unidos, Europa e Canadá são fiéis ao Estado de Israel e aprovam seus crimes contra a humanidade, tal como o fazem todos os meios de comunicação. Eles influenciam ou controlam o Congresso estadunidense, o ramo executivo e as confederações de sindicatos nos Estados Unidos. (…) O apoio unânime das principais organizações judias ao etnocídio israelense estende-se às organizações pacifistas israelenses de 'tempo de paz' e progressistas como Amos Oz (…) Israel distraiu a atenção dos meios de comunicação filo-israelenses das dezenas de palestinos assassinados e feridos diariamente. A cobertura dos media em relação ao genocídio israelense no Líbano é do pior (…) Toda a maciça maquinaria de propaganda judia e pro-Israel encheou o media estadunidenses com mensagens de apoio incondicional ao assassino israelense (…) a doença dos cães raivosos de Israel é contagiosa e afectou o pouco de matéria cinzenta que resta na Casa Branca (…) É como se a invasão do Iraque promovida pelo lobby judeu fosse um simulacro do apoio à invasão israelense do Médio Oriente». (PETRAS, James; «Cães raivosos assolam o Líbano», disponível em http://resistir.info)

É este o novo mito da conspiração judaica mundial. Hitler acreditava que o bolchevismo e a ditadura do proletariado eram fruto dessa trama judaico-maçónica e os bolcheviques sempre viram o capitalismo como resultado do conluio judaico mundial. Depois foi Estaline quem recuperou o anti-semitismo da velha Rússia czarista para qualquer ocasião no interior do aparelho de Estado contra a «maquinação judaica» trotskista. Não por acaso, desconhecemos que muitos judeus combateram na Guerra Civil de Espanha (1936-1939) ao lado das Brigadas Internacionais e que foram eles as primeiras vítimas dos assassinatos estalinistas contra republicanos e brigadistas, já que para a URSS a vitória da Frente Popular não era um fim em si mesmo. Agora, aos poucos, o novo anti-semitismo de James Petras e de tantos outros vai perdendo o pudor e canibalizando espantosamente a memória colectiva.

O maior esforço que se exige na abordagem a Israel é o distanciamento em relação a estes argumentos que lembram o pior das fundamentações anti-judaicas na Europa do século XX que caiu perante todos os ismos. Este anti-semitismo, pouco intuitivo nas nossas heurísticas adquiridas, é uma realidade que não pode ser negada mesmo por quem, tal como eu, não tem qualquer complacência unívoca face a várias políticas de Israel nem aos seus «falcões». Isso será tanto mais difícil quanto se verifica uma monopolização das discordâncias em relação a Israel por parte de movimentos e organizações para-partidárias que enunciam um pacifismo neutral mas que não querem a paz nem a neutralidade, que se dizem vítimas da crítica ao anti-semitismo anti-judaico quando o seu discurso é todo esse, dicotomizando e impondo sentidos únicos, retirando espaço de reflexão e abertura a quem quer pensar sobre estas questões sem deter o tabuleiro do xadrez estratégico.

Com o fundamentalismo islâmico passa-se o mesmo, mas a sua relativa novidade no nosso entendimento do mundo pós-bipolar faz com que os campos sejam ainda menos fechados e sistematizados, o que se traduz numa maior margem para contornar a colonização ideológica e a vulgata uniformizadora de oprimidos e opressores. Não conseguiremos romper com isso enquanto não aceitarmos com clareza que existe um anti-semitismo anti-judaico que se agudizou à esquerda desde a queda do Muro de Berlim, por motivos vários que se agregam na coerência possível. E esse subsolo ideológico tem de ser problematizado, disputado e isolado. Para que não continuemos à superfície daquele senso comum onde tudo parece natural e evidente, não nos apercebendo porém de todos espelhos em redor a deformar tanto o olhar como o que se olha.

:: Nota :: Uma versão em PDF deste ensaio encontra-se aqui para download.

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# por Tiago Barbosa Ribeiro em 7.8.06 | Subscrever  Subscreva Del.icio.us Bloglines Kinja Fave this blog