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Quarta-feira, Agosto 30

O HOSPITAL PEDRO HISPANO. São as pequenas experiências individuais que nos aproximam da verdadeira dimensão kafkiana em que se transformou o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Os hospitais, incapazes de agilizarem processos e de desenvolverem mecanismos de avaliação e gestão do trabalho, acreditam que o serviço pode ser mau porque é público. Médicos e enfermeiros recusam qualquer mudança, fazem greves, contestam. E quase todos aceitam que a solução será sempre mais e mais dinheiro para alimentar um monstro de 20 milhões de euros por dia onde os cidadãos estão à mercê da arbitrariedade, de todas burocracias instaladas e da mais pura incompetência. Cidadãos que são sempre utentes, nunca clientes, apesar do SNS ser um serviço que tem um custo suportado por eles e não uma dádiva do Estado. Se o passivo aumenta, reequacionem-se as fórmulas de financiamento. O inaceitável é que não pode ser rotina. Porque os bons profissionais do sector -- que são tantos -- acabam por ser colonizados por esta máquina. Ou desistem.

O Hospital Pedro Hispano de Matosinhos, tido como um exemplo de excelência, é um caso a salientar. E a divulgar. Há dois anos, um familiar fracturou um membro inferior, fez alguns exames e foi despachado com uma alta. O médico não reparou num coágulo que evoluiu para uma embolia pulmonar. Negligência absoluta. Ontem, outro familiar teve um acidente ao final da tarde. Ferida aberta numa perna. Entrada nas urgências. Do tempo de espera não vale a pena falar. Apenas resmungo e resignação, como escrevia há dias o Jacinto Lucas Pires. Até que chega finalmente um médico. Falava castelhano. Murmura qualquer coisa. Trata do ferimento. Vai-se embora. Espera-se longo tempo. Vem a receita e a necessidade de fazer um curativo de dois em dois dias. O familiar, sem carro nem possibilidade de locomoção, fala ao médico na assistência ao domicílio. Tudo natural num país civilizado. Em Portugal não. Resposta do médico? «Vá de carroça». De carroça. Não era brincadeira. Reclama-se na secretaria do hospital: «Sabe, o médico hoje está maldisposto». Maldisposto. Em qualquer sítio decente, o médico seria sujeito a uma sanção. Num hospital público de Portugal, não.

Por falar em indisposições. Abandona-se o hospital pela 1h da madrugada e procura-se a farmácia mais próxima para comprar os três medicamentos prescritos. A mais próxima, em Matosinhos, está fechada. Há serviço permanente em Leça da Palmeira. Entrega-se a receita. A farmacêutica olha e diz que não tem um dos medicamentos: «tenho vendido muitos esta noite». E o médico não dispensa o genérico, está na receita. Opção? Senhora da Hora. Procura-se a farmácia aberta. O farmacêutico olha para a receita, espanta-se. Não tem os medicamentos. Só naquela noite, cinco pessoas -- 5 -- foram lá com a mesma receita. Todos vindos do Hospital Pedro Hispano, com a vinheta do mesmo médico. O farmacêutico questiona a credibilidade do médico e do próprio hospital. Nada a fazer. Rumo ao Porto. Uma das farmácias de serviço fica na Praça da República. Vai-se lá. O farmacêutico diz o mesmo dos outros dois. Ensaio do desespero. Mas recomenda uma farmácia para os lados do Amial. Está de serviço. E tem os medicamentos.

Compra efectuada, abrem-se as caixas e -- oh, surpresa -- dois dos medicamentos são comercializados pela mesma empresa: Daquimed, SA. Que, por sinal, tem sede em Matosinhos. E o terceiro medicamento tem a tutela da Tecnimed, cujo grupo é parceiro da Daquimed. O médico tem um nome: Marciel Gandara. Da próxima vez que forem ao Pedro Hispano, lembrem-se dele. É com profissionais assim que quase todos os serviços públicos são buracos negros orçamentais, sem qualidade nem eficiência. Há excepções e tenho pelo menos dois amigos que trabalham nesse mesmo hospital e que são empenhados nas suas funções. Mas exigem-se mudanças de fundo no SNS. E têm de ser os cidadãos a determiná-las e a escrutiná-las. Recusando a demagogia em torno dos aumentos das taxas moderadoras: pagando mais até, de acordo com as suas possibilidades, mas responsabilizando o Estado por um serviço eficiente, transparente e com uma gestão racional onde os médicos são médicos e não gestores. Ou aceitamos isso ou a incapacidade de manter o SNS tal como ele existe.

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# por Tiago Barbosa Ribeiro em 30.8.06 | Subscrever  Subscreva Del.icio.us Bloglines Kinja Fave this blog