Sábado, Setembro 16
A DIFERENÇA TODA. 1) Não existem sociedades superiores num horizonte difuso e abstracto. Existem sociedades concretas onde os valores dominantes as tornam mais dignas do que outras para os indivíduos que nelas vivem. As democracias ocidentais, as sociedades liberais, existem tal como as conhecemos devido a um processo histórico que não foi isento dos episódios mais negros e vergonhosos. Com efeito, a modernidade não foi limpa. Mas o que temos actualmente é uma herança de alguns séculos, poucos, em que as sociedades ocidentais conseguiram atingir determinados níveis de desenvolvimento - social, político, cultural - que as tornam mais aceitáveis e justas para o ser humano do que qualquer outra sociedade que conheçamos no presente.
2) Quer isto dizer que devamos exportar e/ou fechar a «civilização»? De todo. Mas é sempre essa a pergunta que coarcta o fio do pensamento, porque a ideia de Ocidente ficou conceptualmente intoxicada no século XX e a sua herança mais recente perturba uma análise clara do mapa-mundi onde a podemos localizar. É que em oposição ao Ocidente, como assim se afirmam outras formas de organização social, nenhuma outra sociedade consegue o mesmo equilíbrio entre direitos e deveres, responsabilidades colectivas e liberdades individuais, Estado e indivíduo, pluralidade de sistemas de ideias e de pensamento intelectual, diversidade religiosa e laicismo, heterogeneidade dos modos de vida, das escolhas, das opções de cada um. Isto é uma evidência, não é um incitamento ao conflito civilizacional. Pode haver quem discorde e prefira abandonar uma dessas sociedades, o que em si é fruto de uma organização societal relativamente aberta e democrática: (i) possibilidade de divergir e (ii) não existir imposição autocrática de fronteiras.
3) A questão que se coloca é um tanto ou quanto complexa, mas problematizável: o que são sociedades ocidentais? Talvez a Holanda seja mais ocidental do que Portugal, mas ambos os países-sociedades estão desde logo geograficamente localizados e são historicamente partilhados. O resto decorre dos padrões sociais, económicos, culturais, políticos e simbólicos de cada sociedade, assim como o entendimento que uns e outros fazem dos denominadores que são tão portugueses quanto holandeses. A Rússia, por exemplo, já integra modalidades vivenciais que são mais conflituais entre si próprias do aquelas entre Paris, Nova Iorque, Camberra e Buenos Aires.
4) Os EUA lideram uma determinada forma de entendimento liberal da vida colectiva que já Tocqueville havia apreendido em A Democracia na América. Na Europa, continente da República e de outras rupturas que alargaram o caudal da modernidade, alguns países não detêm nem têm de deter o capital de liberalismo anglo-saxónico e investem noutras formas de organização institucional, noutras sociabilidades (Steiner, os cafés e a ideia de Europa), noutras manifestações culturais, noutra relação entre Estado e mercado. Nada disso traduz uma diferenciação de fundo quanto às raízes do liberalismo histórico -- sem ele também não existiria o marxismo -- em que se estruturam Europa e EUA. Logo, quando falamos de civilização ocidental, situamo-nos essencialmente na Europa mundializada que os EUA representam: a primeira colónia da expansão europeia a travar uma luta de independência burguesa e revolucionária.
5) Numa altura em que mais um episódio de intolerância irrompe entre religiões e regiões que delimitam sistemas-mundo ideológicos, convém lembrar que não há sociedades superiores. Há sociedades que se superiorizam pelo que possibilitam aos indivíduos que nelas vivem. É essa a diferença, toda ela, que nunca poderá ser negociável embora seja sempre hipoteticamente reversível: algo que só o alinhamento das nossas transigências poderá ditar.
:: Adendas :: 1) Ler o Luis Januário e o Rui Bebiano. // 2) João Ferreira Dias chama a atenção para as modernidades alternativas, que na contemporaneidade remetem essencialmente para as contraculturas da modernidade.
Etiquetas: Civilizações, Democracia, Identidades ideológicas, Modernidade
# por Tiago Barbosa Ribeiro em 16.9.06
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