Segunda-feira, Agosto 20
EUFÉMIA, OS TRANSGÉNICOS E OS MITOS. Sem culpa nenhuma, Catarina Eufémia tem sido um autêntico pau para toda a obra de releitura do passado. A circunstância e a história ditaram que se tivesse transformado num mito do PCP e aí se enquistasse na tradição oral daquele «bom povo português» a quem se dirigia a revolução nacional dos comunistas. Catarina Eufémia, jornaleira analfabeta, dessexualizada e resistente, tinha tudo para ser explorada pela luta partidária comunista. E foi-o: em 1982, 28 anos passados sobre o seu assassínio, é publicado um livro pela Editorial Avante! onde se amplifica a tese de que Eufémia era comunista e tinha um filho no ventre quando foi baleada no peito pela GNR. Mas o médico que a autopsiou e que faleceu recentemente, Henriques Pinheiro, desmentiu em tempo útil a parcela física do mito. Quanto ao resto, sabemos hoje que Catarina Eufémia também nunca foi comunista. Cinquenta anos de mito subsistiram com base em pressupostos falsos e forjados, mas o mito aí esteve. E continua nos nossos dias, agora devidamente reciclado pelos ventos de novas causas, como é o caso do Verde Eufémia.
Catarina Eufémia Baleizão era tão só uma mulher que lutava pela sua dignidade e por um prato de comida, no universo de um regime repressivo que se revelou particularmente brutal para os trabalhadores agrários do Alentejo. Em meados da década de 1950, quando o espectro da fome assola a região, o contexto torna-se ainda mais crítico e aí que Catarina Eufémia vai ser assassinada e cristalizar o seu lugar na nossa memória colectiva como um dos mais emblemáticos mitos comunistas, tendo um papel central na educação política de uma comunidade pobre e miserável que trabalhava nos latifúndios. Sucede que as motivações de Catarina Eufémia seriam tão «comunistas» quanto as de Lech Walesa quando abalou as bases da ditadura comunista na Polónia da década de 1980 e, se aí vivesse, talvez Catarina Eufémia tivesse sido tão anti-comunista quanto ele. O mito de uns é o anti-mito de outros.
Já passaram mais de cinquenta anos, Catarina Eufémia perdeu boa parte do seu capital significante até no PCP, mas é agora ressuscitada pelos vândalos do campo de milho no Algarve em homenagem -- passo a citar -- às «lutas camponesas no Alentejo». É muito curioso que este activismo recupere a simbólica de Catarina Eufémia, embora despojando-a obviamente do «comunismo», do seu jargão rugoso e da sua ligação histórica a um tipo-ideal que os ecologistas radicais querem implodir, seja o mundo industrial ou uma certa normatividade «original» do mundo rural. Mas a ruptura desta ligação de Catarina Eufémia ao lugar fundacional da memória comunista é mútua.
(i) Por um lado, o PCP abomina este tipo de acções. Considera-as voluntaristas, sem ordem nem objectivo, e num mundo que já não existe iria atribuí-las ao radicalismo de algumas constelações da extrema-esquerda. Sem elas e sem os ismos do proletariado, os seus herdeiros são essencialmente o efémero Verde Eufémia e todos os outros que se projectam difusamente como «anarquistas», pelo que este movimento mais não fez do que aplicar a triste receita que hoje vemos em alguns grupos marginais, mas particularmente activos, do movimento alter-globalização.
(ii) Por outro lado, decifrando o que está para lá da facúndia sobre as «lutas camponesas», facilmente se percebe que os membros do Verde Eufémia também nunca poderiam pertencer ao PCP. Dos lugares de classe às mundivisões ideológicas, passando pelas lógicas de intervenção no espaço público (entre muitas outras variáveis), tudo ali remete para uma certa «esquerda» que só o é por contágio de imagens e verbos, que das esquerdas não tem a memória nem o património ideológico e que vive exclusivamente entre os Ipod's e a rede mundial de computadores. O seu discurso é totalmente desligado do real e, sem mais interlocutores no mundo físico (nomeadamente pessoas, actores sociais), sobrevive destas acções de espectacularidade mediática que talvez sejam mais próximas -- na complacência «festiva» para com o acto -- do BE, mas que ainda assim julgo que inspire uma enorme repulsa a muita gente daí.
Quanto a Catarina Eufémia, se hoje fosse viva, morreria de susto enquanto tentava perceber o sentido da violência daquele «verde» caído de Marte no seio de uma economia familiar como a que vimos na televisão. Nem vale a pena tentar introduzir aqui a discussão sobre os transgénicos, que de facto considero muito importante mas que se pulveriza perante tudo isto. Nem tão pouco puxar aquele vandalismo para o âmbito da «desobediência civil», um instrumento político fundamental em inúmeros contextos históricos (a começar pelo nosso, sim), mas que em nada se assemelha a tudo o que ali se passou e à absoluta insensibilidade de despejar um autocarro de activistas-rastafari com telemóveis 3G e tabaco de enrolar para dizer o que está ou o que não está correcto a um agricultor do Algarve que planta milho para ter o que comer na mesa.O que se viu no Algarve foi de uma violência atroz, física mas também simbólica (Bourdieu), por parte de alguém que desce ao campo vindo de um «mundo superior» de militâncias em rede, manifestos morais e comida macrobiótica para destruir um campo de cultivo de alguém que não conhece nada disso e vive com a dignidade possível, dentro das normas e da legalidade exigida, com os seus valores particulares e um entendimento concordante com o que o rodeia. E o Verde Eufémia, na sua ignorância, talvez nunca venha a saber que Catarina Eufémia seria sempre uma entre muitas como aquele pequeno agricultor, resistindo sem ter como à selvajaria da invasão, e nunca por nunca uma das meninas anarco-chic que ali actuaram em seu nome. É o mundo que temos.
:: Adenda :: O sempre atento João Tunes lembra aqui a exploração ideológica de Catarina Eufémia por outras forças que disputaram a hegemonia do PCP já depois das duras lutas dos anos 50 e das profundas transformações de 1960-70, isto é, aquelas que gravitaram entre o maoismo e outras correntes da extrema-esquerda portuguesa.
Etiquetas: BE, Catarina Eufémia, Esquerda, Memória, PCP, Transgénicos
# por Tiago Barbosa Ribeiro em 20.8.07
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