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Quarta-feira, Agosto 15

SOARES, A LIBERDADE E O FUTURO. No Público desta quarta-feira, dois artigos -- um de Mário Soares e outro de Francisco Louçã -- merecem atenção particular por motivos bastante distintos. Começo por Soares, que responde a um editorial de JMF onde este o acusava de esquecer as suas responsabilidades históricas na defesa intransigente da liberdade, a propósito de uma entrevista recente ao Diário Económico. Antes de qualquer análise, convém salvaguardar que o que se disse sobre a entrevista não corresponde de forma geral ao que está dito na entrevista. O Rui Cerdeira Branco publicou aqui alguns excertos e vale a pena comparar.

Começo por salientar que, como se adivinhará, discordo em absoluto de Soares em relação a Hugo Chávez. Mas consigo subscrever o essencial do que ele escreve hoje no Público. Contraditório? Não. O nervo dos valores do socialismo democrático está todo lá e esse opõe-se frontalmente ao chavismo. Numa reflexão pessoal, parece-me -- embora possa estar enganado, claro -- que aquilo que surge como uma aparente proximidade de Mário Soares em relação a Chávez não só é uma impossibilidade estrutural como não passa de uma repulsa profunda perante o «bushismo». Pode ser uma péssima estratégia, mas pelo menos abre respostas mais verosímeis do que ver em Soares uma deriva anti-democrática.

Mário SoaresIsto é, no contexto de uma administração norte-americana que cometeu erros trágicos sobre erros trágicos -- o Iraque é isso e muito mais --, tudo aquilo que surja como uma hipotética recusa do programa dominante dos últimos anos parece ter em Soares uma atenção e um benefício da dúvida bem mais do que qualquer dúvida devida. Considero isso um erro, mas Soares não precisa propriamente de um coro de ofendidos.

Até porque Soares, querendo ler Chávez de uma forma que ele não pode ser lido, acaba saudavelmente por contradizer-se. E ainda bem. Porque é essencialmente o seu «pessimismo profundo» que o conduz a isso, não a política. Quanto ao mais, independentemente do efeito de conjuntura, insisto que Soares acaba realmente por relativizar o programa autocrático de Chávez e isso não pode ser silenciado simplesmente pelo seu exemplo histórico. Ou melhor: não pode precisamente por ele.

Acredito que uma vitória Democrata nas próximas presidenciais deslocará os eixos da política de Washington e abrirá novas perspectivas de isolamento dos epifenómenos populistas que estão a corroer alguns países da América Latina e que resultam, eles mesmos, do campo aberto por George W. Bush. Soares, estou em crer, também. E logo ele, que neste mesmo artigo salienta os princípios que são os de uma vida e que caudilhos como Chávez subvertem por completo: respeito pela democracia formal, pela separação de poderes, pela diferença, pelo pluralismo.

Mas o problema, de facto, é mais profundo. Os anos de governação de George W. Bush desestruturam os pilares do governo mundial da ONU, agrediram as bases do papel internacional da Europa, regrediram as alternativas do «capitalismo regulado» no interior do continente, rasgaram qualquer entendimento sobre as alterações climáticas e ferveram o caldo de proto-ditadores como Chávez. Tudo isto, como se sabe, paralelamente a uma tremenda arrogância e a uma nuvem de mentiras que conduziram o mundo -- não só a América -- ao atoleiro iraquiano.

Creio que é no pêndulo dessa enorme balança que Soares pondera fenómenos como o chavismo, considerando-os menores perante os desafios que se impõem à ordem mundial depois da era Bush. E se isso é um erro, como considero que é, julgo que pessoas como JMF deveriam ter um pouco mais de humildade ao reclamarem o ónus da virtude democrática depois de tudo o que escreveram em relação ao Iraque -- e não só.

Quanto ao artigo propriamente dito, e descontando o autêntico knockout de Soares com aquela interrogação retórica a JMF [«Acusa-me de ser antiamericano com a mesma sem razão com que outros (talvez mesmo o Senhor Director, não me lembro bem), no Verão quente de 1975, me acusavam -- crime nefando! -- de ser pró-americano.»], saliento as passagens abaixo e em discurso directo que subscrevo integralmente. Os sublinhados são meus.
«(...) Para além de sempre ter lutado pela liberdade, como reconhece -- 32 anos antes e 33 depois do 25 de Abril, naturalmente em condições muito diferentes --, lutei contra a ditadura fascizante que nos oprimiu, contra o colonialismo, que nos custou, sobretudo após 1961, tantas humilhações e tantas vidas, tão inúteis, lutei e luto pela paz, pelo bom entendimento entre os Estados e as pessoas, sem discriminações, pela Europa, como uma entidade supranacional, e, no plano cultural, contra o obscurantismo, o dogmatismo, o espírito inquisitorial e contra todas as formas de intolerância.

Além de lutar pela liberdade, também sempre lutei em favor da justiça social e contra as profundas desigualdades que afligem, cada vez mais, as nossas sociedades ocidentais, para não falar das outras. Por isso sou socialista, não totalitário, partidário de um sindicalismo livre e do mercado, mas também de um Estado interventivo e justo que impeça e corrija, tanto quanto possível, as grandes desigualdades que o mercado, entregue a si próprio, sempre gera. Foi a isso que chamei, no Verão quente de 1975, socialismo em liberdade, para o diferenciar doutros modelos então em moda. Deve lembrar-se.

Sou liberal, no sentido político do termo (...) Sou crítico também da chamada democracia liberal, expressão nada inocente, que se tornou muito vulgar após o colapso do comunismo, para a impor como modelo urbi et orbi e a contrapor à democracia social, que deu os "trinta gloriosos anos" de progresso à Europa escandinava e ocidental (CEE). É esta a minha posição, coerente comigo próprio, que, julgo, tanto lhe desagrada, e o leva, creio, a não querer compreender algumas minhas respostas ao Diário Económico, aliás no seguimento de outras que dei antes e dos artigos que regularmente escrevo, na imprensa portuguesa e estrangeira.

Quanto aos "tiques autoritários" do actual Governo. Lamento decepcioná-lo, mas não são mais do que isso, pequenos tiques. Querer empolá-los, comparando-os às arbitrariedades dos anos sem luz do fascismo, não só representa um inaceitável exagero como um dislate que compromete, por desafiar o senso comum.

Quanto ao problema das liberdades formais a que -- diz -- não atribuo importância, também está enganado. Salvo erro, fui dos primeiros a levantar essa questão, entre nós, nos anos de brasa de 1974-75. Disse e escrevi então que as liberdades ditas formais, como a gíria marxista as classificava para lhes tirar importância, são essenciais. Porque sem respeitar as liberdades formais, as substanciais, que têm a ver com o bem-estar das pessoas, perdem muita eficácia e valor, como se viu. (...)

Um homem político não pode ser nem vestal nem moralista. E falar -- como é óbvio -- não é mal que se pegue... Nem sequer com terroristas, se necessário. Veja como o seu admirado Bush tem falado, por interposta Condoleezza Rice, com todos quantos lhe parecem necessários, pertençam ou não ao "eixo do mal". No Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, na Coreia do Norte, no Irão...

O caso de Putin -- e da Rússia -- é mais sério e grave, porque, muito provavelmente, a Rússia vai alinhar -- e oxalá o faça -- numa parceria estratégica com a União Europeia. A Rússia foi humilhada e menosprezada, após o colapso do comunismo. Não deveria ter sido. (...) A menos que sejamos tão insensatos que queiramos atirar a Rússia, contra os nossos interesses, para o triângulo estratégico que pode vir a desenhar-se na Ásia: China, Índia, Rússia. Já pensou nessa eventualidade?

Finalmente não será inútil concluir com Bush, o flagelo maior deste nosso conturbado início de século. Acusa-me de ser antiamericano com a mesma sem razão com que outros (talvez mesmo o Senhor Director, não me lembro bem), no Verão quente de 1975, me acusavam -- crime nefando! -- de ser pró-americano.

Não. Não sou antiamericano. Não sou, de resto, contra nenhum povo. Sou contra as políticas de certos dirigentes, quando as considero nefastas e perigosas. Foi o caso de George W. Bush, cuja política denunciei -- lembra-se disso -- antes de ter invadido o Iraque. Medite agora nas consequências desse crime fatal. Pois bem, hoje cerca de 80 por cento dos americanos são críticos severíssimos de Bush e lutam desesperadamente por encontrar uma saída para o terrível imbróglio criado por ele. Não só para os EUA mas para todo o Ocidente, com destaque para o impasse em que tem permanecido a União Europeia, devido à subserviência e falta de coragem de bastantes dos seus dirigentes.

Permita-me que termine revelando-lhe o meu actual estado de alma. Estou muito pessimista quanto ao futuro próximo do mundo. (...) Sabe donde julgo pode vir alguma razão de esperança? Vou surpreendê-lo. Precisamente da América do Norte, terminada a era Bush. Tudo vai ter de mudar, radicalmente, na substância e na forma. Seja qual for o novo presidente. E, com um pouco de sorte, poderá vir alguém capaz de redescobrir o velho pioneirismo e idealismo americano, na linha de um Wilson, de um Roosevelt, mesmo de um Eisenhower (quando teve a coragem de negociar a ameaça do complexo político-militar) ou de um Kennedy, da "nova fronteira". Alguém capaz de redescobrir, pela força das circunstâncias, o way of life americano, os velhos valores da solidariedade, da paz e da utopia, para represtigiar a América no mundo, ajudar a União Europeia a sair do impasse, dar força e sentido às Nações Unidas, lutar a sério, e sem retórica vã, contra a miséria e as pandemias que alastram no mundo, em favor de um ambiente são, dos direitos humanos, da liberdade e da justiça social.»

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# por Tiago Barbosa Ribeiro em 15.8.07 | Subscrever  Subscreva Del.icio.us Bloglines Kinja Fave this blog