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Domingo, Dezembro 9

A CIMEIRA. Pode ter sido distracção minha, concedo, mas não me parece que os discursos dos dirigentes europeus sobre a situação humanitária e o respeito pelos direitos humanos em África tenham passado de envergonhados murmúrios. Se o zénite foi a intervenção de Angela Merkel, então mais valia assumir a desistência dos valores na política externa europeia. Bem sei que a «diplomacia» não poderia ter feito outra coisa que não deixar a cada organização continental a responsabilidade pela distribuição de convites aos seus membros. Mas exigia-se que a Europa não se ajoelhasse desta forma ao desfile de torturadores, genocidas, criminosos de guerra e déspotas que estiveram por estes dias em Portugal. Dos (poucos) bons exemplos de governação em África, naturalmente, não ficará nada para a memória desta cimeira.

Ultrapassados pela presença tentacular da China em África, os europeus fazem o que podem para não perder um comboio que está ser integralmente construído, gerido e conduzido justamente por uma China a quem pouco importa os direitos humanos, a transparência e o desenvolvimento do continente africano. É a mesma competição, aliás, que fornece o argumentário para a desintegração dos sistemas sociais na Europa. E a África, para além da China, vai chegando também a Rússia e em breve a Índia. A Europa e os EUA, progressivamente, contarão cada vez menos. Mas não é trocando salamaleques e croquetes com reputados violadores dos direitos humanos que aumentarão a sua influência. Recebendo-os em nome de uma parceria continental aceitável e desejável, não poderiam ter negligenciado daquela forma a denúncia da barbárie que grassa em dezenas de países liderados por gente que deveria estar no Tribunal Penal Internacional e não no Parque das Nações.

África title=Ao contrário do que vou ouvindo aqui e ali, não é fácil distribuir «culpas» pela situação de África. Se formos por aí, ninguém ficará ileso e os africanos ficarão na mesma. Daí que seja absolutamente essencial que o mundo ocidental abandone os seus complexos pós-coloniais e olhe para a paralisia e subdesenvolvimento de quase todos os países de África como resultado directo das cleptocracias abjectas que resultaram das independências. O problema não está na descolonização, evidentemente, mas no abandono a que os africanos foram votados às mãos de dirigentes sanguinários durante a Guerra Fria. Isso é absolutamente claro e indesmentível, por mais leituras que se façam da história.

O Zimbabwe, antigo «celeiro» do continente, é hoje um abismo provocado pelo racista e vagamente louco Robert 'Hitler' Mugabe. Nesse sentido será um exemplo, um paradigma do que não deveria estar presente nesta cimeira, mas o Reino Unido tem apertado a mão a ditadores não menos ferozes que estiveram em Lisboa. Do terrorista (reformado) coronel Kadhafi que está no poder na Líbia desde que Nixon era presidente dos EUA, ao engenheiro de petróleos Eduardo dos Santos que reservou 80 quartos no Ritz enquanto a esperança média de vida dos angolanos não ultrapassa os 40 anos, há de tudo um pouco em nome de uma realpolitik de duvidosos resultados. Queiramos ou não, todos estes ditadores regressão aos seus países com uma legitimidade reforçada por esta Europa que aceitou colocar um parêntesis nos seus valores fundamentais, tolerantes e plurais, para lhes aspirar diligentemente a passadeira vermelha. É duro, mas é assim mesmo.

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# por Tiago Barbosa Ribeiro em 9.12.07 | Subscrever  Subscreva Del.icio.us Bloglines Kinja Fave this blog