Terça-feira, Abril 8
UM LIBERALISMO POR QUOTAS (2). Ainda a propósito da nomeação de Jorge Coelho para a Mota-Engil, e discordando do André Abrantes Amaral, do Adolfo Mesquita Nunes e do João Caetano Dias, recomendo aquilo que Maria José Nogueira Pinto defendeu esta noite na SIC Notícias. Quanto a este debate e aos que contestaram o que escrevi, bloggers que prezo, lamento concluir que não apresentaram nenhum argumento sólido para a sua crítica.
- (1) Se o problema é a relação entre o Estado e as empresas, então acabe-se com todos os Estados e todas as empresas em todos os países do mundo porque não encontro um único onde essa relação seja inexistente.
- (2) Se o problema é a relação entre ex-políticos e o sector privado, então obrigue-se todos os ex-governantes à reforma compulsiva após cessarem funções.
- (3) Caso não se queira uma medida tão radical, existem duas alternativas. Uma delas é impôr um período de carência entre o fim das funções governativas e o início de funções privadas na mesma área, mas este princípio já existe. Podemos discutir a sua duração, claro, ou aumentar os anos de incompatibilidade; mas Jorge Coelho até dilatou esse prazo, já que abandonou o cargo que está na mira das críticas há mais de 7 anos. Há sempre outra alternativa, que será impedir ex-governantes de exercerem funções no sector privado na área que tutelaram enquanto ministros. A ideia pode ser discutida mas parece-me inaceitável, porque parte de um princípio de suspeição prévia e de culpa sobre qualquer pessoa que exerça um cargo público e ignora a experiência que se adquire nessas funções. Se alguém que trabalha numa empresa privada obtém um capital importante para funções públicas, o contrário não é válido? Ou Jorge Coelho, que foi ministro na área das Obras Públicas, deveria especificamente ser director do Teatro Nacional S. João?
- (4) Se o problema são os motivos que levam à escolha de A ou B para a administração de uma empresa privada, então acabe-se com a economia privada. E teriam de ser os liberais, parece-me, a tomar o primeiro passo. De Ferreira do Amaral na Lusoponte a Pires de Lima na Unicer, passando por tantos outros, encontro inúmeros casos de ex-dirigentes políticos que exercem cargos de relevo em empresas privadas. Uns porque já desempenhavam essas funções, outros porque adquiriram know-how importante para uma empresa enquanto foram ministros, deputados, vereadores ou o que seja. E é assim em Portugal, em Espanha, na Alemanha e nos EUA, com toda a naturalidade. Qual é, muito concretamente, o problema?
Porque até agora tenho visto sobretudo críticas às escolhas de gestores e administradores identificados com a esquerda, como se isso valesse mais do que o trabalho que desempenham, menosprezando-se a dimensão política de outros à direita. Santos Ferreira, um gestor de carreira, tem mais ou menos capacidade para liderar o BCP do que Paulo Teixeira Pinto, que ascendeu no banco após uma experiência governativa com Cavaco Silva? Pois. É por isso que esta discussão é estéril. Se é para criticar esta ou aquela escolha de uma empresa com base no passado político de alguém, então isso nunca passará de um exercício de demagogia que não terá o meu contributo. Se é para denunciar suspeições e tráficos de influências, então os tribunais estão por aí mas creio que nenhum ser portador de vida inteligente colocasse um corrupto sob os holofotes da administração da sua empresa. Se não é para discutir nada disto, como me parece, então de facto não há nada para discutir. Adiante.
:: Leitura complementar :: «Um liberalismo por quotas».
Etiquetas: Capitalismo, Escolhas do mercado, Liberalismo
# por Tiago Barbosa Ribeiro em 8.4.08
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